Um quadro é feito para enfeitar uma parede.



No fim de semana passado, durante uma conversa sem o menor compromisso, surgiu um assunto um tanto polêmico.


Falávamos sobre arte, realidade do mercado e coisas assim. Num dado momento aquecido da discussão, fiz a seguinte pergunta:


- Para que serve um quadro?


Após ouvir algumas tentativas mais ou menos mirabolantes de respostas mais amplas e politicamente corretas, eu revelei qual seria a minha resposta:


- Na "minha opinião" um quadro, antes de mais nada, é feito para enfeitar uma parede.


Prefiro não descrever a fúria e a indignação com que minha afirmação foi recebida.


Na verdade, por mais grosseiro que pareça ser meu ponto de vista, a história mostra que que ele é mais ou menos verdadeiro.


Historicamente, artistas sempre foram contratados para produzir arte, para enfeitar paredes das igrejas, palácios ou as casas dos mais abastados. O poder econômico contratante era representado pela realeza ou a igreja nos séculos passados, ou patrocinadores ou leis de incentivo nos dias de hoje.


No caso mais específico da música, a coisa acontece exatamente da mesma forma. A música era e é sustentada pelo poder econômico.


Uma vez recebi um email de alguém que eu nem conhecia, mencionando uma frase supostamente proferida por Bill Gates que me chamou muito a atenção. A frase dizia o seguinte:


- A humanidade espera que você faça alguma coisa por ela.


Ora, mas o que isso tem a ver com a questão do quadro e da parede?


Tudo!


Nossa música deve servir para alguma coisa, se é que pretendemos viver dela. Em algum nível nossa música deve ter uma utilidade para alguém. Uma pessoa pode usar música para dançar, para namorar, para viajar, para aprender a tocar um instrumento, para se distrair, ou seja, para muita coisa, mas a música deve ser útil.


Sei que essa afirmação parece fria. Mas onde estaria aquela proposta da arte pela arte, da pureza de propósitos, do total descompromisso com o dinheiro?


- Está na casa de quem não precisa viver de música.


Se observarmos bem, todos os artistas que atingiram o reconhecimento, dimensionaram muito bem sua arte em relação ao público que pretendiam atingir.


A música de massa descobriu esse segredo há muito tempo e seus produtores e artistas dominaram o mercado. Não há nada de errado nisso. Eles apenas produzem uma música que interessa e é útil para uma enorme quantidade de pessoas que usam a música para se divertir.


Como instrumentista que sou, sei que as pessoas que mais se interessam pela minha música estão nas escolas, universidades, clubes de jazz ou guitar societies, que são os nichos que reúnem os amantes do meu instrumento, e que querem apreciar e/ou aprender. Assim sendo, produzo meus trabalhos e os veiculo de forma direcionada a esse mercado.


Voltando ao quadro e a parede, podemos então definir o seguinte paralelo: Precisamos escolher o tipo de parede que combina melhor com o quadro que queremos pintar. Portanto precisamos saber quem são, onde moram e que ambiente frequentam os proprietários das residências que são sustentadas por essa paredes.


Se formos observadores, saberemos identificar quem gosta da música que fazemos, e poderemos nos aproximar, mostrar nosso trabalho e finalmente fechar o ciclo da arte, que para mim é uma lingua. Você se expressa através de sua música e alguém recebe sua mensagem. Se a mensagem for útil, essa pessoa a leva pra casa.



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