Tradição - Remédio ou Veneno?

Como violonista dividido entre a carreira artística e a didática tanto nas escolas livres bem como em universidades, sempre entendi a “tradição” como um elemento organizador.
Tal qual um antigo pergaminho, escrito por milhares de mãos, a tradição nos livra do esforço pouco inteligente de inventar a roda.
O problema é que ela pode ser uma cortina de fumaça entre nós e a criatividade, escondendo o caminho da experimentação.
Um dos exemplos mais comuns desse tipo de efeito colateral pode ser observado no comportamento de alguns luthiers, sempre usando como referenciais, instrumentos antigos, muitas vezes construídos há séculos. O grande violonista, Paulo Bellinati, uma vez mencionou que os “Stradivarius” do violão estão sendo construídos hoje. Concordo plenamente com esta afirmação, fico surpreso e até um pouco inconformado, ao ver gente jovem repetindo trilhas anciãs, sem qualquer questionamento.
Não sei se por falta de ideias, ou por medo de arriscar novas fórmulas, o respeito cego pelas referências antigas cria uma zona de conforto que muitas vezes
desencoraja a busca por novos caminhos. O resultado acaba sendo “mais do mesmo”.
Ainda batendo na tecla da construção de violões, sinto que há uma grande rejeição ao uso do tensor, um estabilizador do braço do instrumento muito comum nas guitarras elétricas e nos violões de cordas de aço.
Um de meus violões tem tensor e garanto que é uma peça imprescindível, principalmente para violonistas que viajam bastante para locais onde as condições climáticas são muito variáveis.
O mais interessante é que este aparato, que nem aparece externamente não causa nenhum efeito colateral ao instrumento e mesmo assim o tensor é rejeitado simplesmente porque não é tradicional.
Este mesmo fenômeno acontece no ambiente musical. Um exemplo bem recorrente refere-se ao conceito de improvisação.
Uma vez um aluno da Unicamp chegou para mim e disse que tinha escutado meu CD novo, e que não gostou das minhas improvisações porque as frases não eram jazzisticas. O que ficou subentendido em seu comentário é que seus horizontes mostraram-se muito limitados, e por isso passa a rejeitar trabalho de alguém que escapa da sua área de compreensão, cujos contornos estão totalmente delimitados pela tradição.
Minhas observações me levam a crer que os artistas que alçam os vôos mais altos são aqueles que procuraram ir além dos limites da tradição, usando-a como referência, mas buscando alargar o cinturão desses limites.
De certa forma, a escola é responsável por esse fenômeno. O compromisso com a formação sólida do aluno, implica numa forte imersão nas questões estruturais e o consequente contato com a tradição. O efeito colateral dessa realidade é que curiosamente vai ficando cada vez mais comum, jovens músicos reeditarem esta tradição, e às vezes ao pé da letra. Raros são aqueles que a usam como um arco para arremessarem suas ideias para além dos muros.
Diante desses fatos torna-se inevitável a pergunta:
- a tradição é o remédio ou o veneno?
A resposta que vem imediatamente à minha cabeça é:
- depende da dose!