top of page

O talento cria. Na falta dele, compartilha-se a criação do outro.

Atualizado: 17 de jun. de 2023




Ulisses Rocha

Dando um passeio na internet, me deparei com uma de minhas composições em um site bem famoso de compartilhamento de partituras. Mais tarde, percebi que tinham várias. Essas partituras chegaram lá pelas mãos de meus próprios seguidores.

Este fato, tão comum, esconde uma realidade promíscua e obscura que é a apropriação indébita. O mais estranho é que a pessoa que fornece o material sem a devida autorização não ganha nada com isso. Já o tal site, ganha – e muito. Ou seja, o sujeito transfere deliberadamente os ganhos do artista para as contas de empresas ricas e, moralmente, bem suspeitas. É um Robin Hood às avessas.

E por que isso acontece?

É uma tradição. No mundo musical, há uma prática mesquinha de “copiar para economizar”. Parece até lei: há décadas, apareceram as fitas K7, as fotocópias (Xerox), os CDs… São produtos criados para facilitar a vida, mas que foram clandestinamente usados para cópias não autorizadas. Hoje, temos o MP3 e o próprio PDF encabeçando esta prática.

Ajustando o foco deste texto para a música, percebo que, além de copiar, a pessoa ainda compartilha de graça. Parece que a insignificância da alma desse sujeito de baixa estima encontra alento na sensação de utilidade e pertencimento ao compartilhar obras alheias sem custos. Essas pessoas encontram seus espaços no afago do suposto reconhecimento.

Alguns esbanjam o contra senso de comprar e depois dar de graça, como se estivessem fazendo uma boa ação. Na verdade, é bem o contrário.

A maioria das profissões autônomas trilha um caminho lógico. Um médico estuda, se forma, faz residência, se especializa, trabalha num hospital e monta uma clínica particular para ganhar a vida. Engenheiros, advogados e psicólogos, entre outros profissionais, percorrem um caminho bem similar. Guardadas as características de cada caso, se cumprem todas as etapas, não precisam nem ser brilhantes. Tudo acontece como a realização de um script ou uma receita de bolo.

No mundo da arte, isso é diferente. O artista tem que se reinventar a todo momento, criando caminhos na “areia”, onde a primeira onda se encarrega de apagar as pegadas.

O músico que acorda para essa realidade, logo percebe que os prognósticos para o seu próprio sustento na velhice não são nada animadores. Uma das possibilidades para o vislumbre de uma vida mais tranquila é criar materiais de interesse para o seu público alvo. E a produção de material didático e artístico tem se mostrado uma boa alternativa, principalmente nos dias de hoje, com a distribuição digital. Toda a dedicação à melhora do conhecimento e da performance pode e tem sido uma fonte útil para as novas gerações, que se beneficiam do conhecimento do antecessor, transmitido eficazmente pela tecnologia moderna.

O mais estranho em tudo isso vem agora:

Por que esse material tem que ser distribuído gratuitamente?

Por que alguém compra um material para quase imediatamente doar a amigos, alunos e até para plataformas, que normalmente faturam muito com isso?

Por que esse abuso, com pitadas de ódio, é praticado justo contra aqueles que admiramos e pavimentaram a estrada sobre a qual queremos seguir?

O mais assustador é que os grandes vilões dessa prática são exatamente os professores, os músicos e os amantes da arte. Eles não percebem nem que cometeram um crime, além de estarem prejudicando seus colegas e ídolos.

Antigamente, havia o velho argumento de que partituras eram difíceis de serem achadas e que custavam caro. Hoje, não há mais essa desculpa. Muitos artistas vendem seus produtos diretamente ao consumidor, sem a participação de um atravessador (lojista, distribuidor, editor, etc.) por preços bem simbólicos que, em hipótese alguma, paga pelo imenso trabalho dedicado para a realização desse material. Mesmo assim, o “bebê” vai lá e dá um peteleco no primeiro dominó da fileira, derruba tudo e ainda acha graça.

Certa vez, fiz a seguinte enquete com amigos e alunos:

– Você compra o material escolar do seu filho, ou você tira xerox dos livros de um amiguinho dele?

A resposta foi unânime: preferem comprar, é claro. Se um garotinho chega na escola cheio de fotocópias, pode até sofrer bullying, e o pai vai ficar envergonhado. Mas na música não é isso o que acontece. Se você compra uma partitura ou um método, pensa logo em “ajudar” os colegas compartilhando tudo de graça. Além de não se sentirem envergonhados, ficam orgulhosos.

Portanto, queridos colegas, alunos, amigos e amantes da música, parem de perpetuar essa prática. Paguem o valor justo pelo material que te enriquece a alma e o conhecimento. Não abuse de seus ídolos e referências, pois essa atitude é como ir à missa para acalmar a alma, mas não perder a chance de roubar o pote de dinheiro do coroinha.

Um dia, quem tiver a sorte de chegar a uma idade mais avançada, vai entender a sensação de ter a sua obra tratada como algo descartável, que é dado de mão beijada para o reciclador – que ainda vai querer te vender de volta o que você já tinha. Acreditem: essa conta virá e vocês vão lembrar desse texto.

Ou… Talvez seja apenas por inveja mesmo, um tipo de ódio próprio de quem não tem talento. Na minha opinião, esta é a única justificativa plausível.



216 visualizações4 comentários

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page